A burocracia da pesquisa científica

Minha professora de Comportamento Organizacional da Faculdade nos ensinou que “a burocracia é necessária para a organização de toda grande empresa”. Afinal, sem regras não haveria organização, sem organização não haveria produtividade e sem ela, a empresa não teria lucros. Justificado então.

Mas incrivelmente observo uma distância muito peculiar entre o criativo, o inteligente, e a pesquisa científica. Tudo por um abuso de burocracia. Deixe-me explicar.

Sr. João cursou até a 4ªsérie; hoje, ele tem 42 anos. Desde os 15 fabrica pequenas peças em madeira na sua oficina, e costuma vender bem seus produtos. Ele não tem conhecimento teórico da fabricação de suas peças, demonstrado em projetos bem elaborados em CAD e cálculos, mas ele sabe fazer. Aprendeu o ofício com seu pai e tem muita habilidade manual, o que garante a qualidade final do produto. Sr. João sabe fazer, mas, digamos, não sabe como é feito.

Francisco tem 21 anos. Cursa o 3º período de Engenharia Mecânica numa Universidade pública. Ele sabe projetar peças, calcular adequadamente, mas provavelmente não saberia debastar um bloco de madeira. Ele tem conhecimento, mas nenhuma habilidade. Francisco sabe como é feito, mas, digamos, não sabe fazer.

Ora, o que é mais importante: saber fazer ou saber como é feito? Certamente, os dois.

Na minha opinião, este é o principal problema da pesquisa científica; o caminho para chegar ao ensino acadêmico é cansativo e burocrático para quem já “sabe fazer” mas ainda não conhece, nas entrelinhas, “o porquê daquilo que acontece”.

Vejo nos cursos de Graduação uma distância absurda entre a teoria e a prática e até mesmo uma competição esdrúxula entre ambas, como se uma fosse mais importante do que a outra. Eu sinceramente passei muito tempo acreditando que um curso superior de Engenharia Elétrica bastaria e seria muito mais valoroso em termos de conhecimento que vários anos de experiência prática da atividade da mesma Engenharia Elétrica na área industrial, por exemplo. E no auge da minha ignorância, demorei para descobrir que não apenas a formação técnica, teórica em Engenharia Elétrica é importante para o exercício das atividades profissionais, como também a prática de campo é fundamental para consolidar o conhecimento. Talvez seja este o motivo pelo qual o CREA tenha se posicionado contra os cursos EAD de Engenharia (leia o manifesto aqui).

Definitivamente, se você quiser se destacar como profissional, busque a experiência prática, mas nunca deixe de estudar. Este é o verdadeiro pesquisador; aquele que busca soluções para os problemas da sociedade, sem atavismos. Até lá por certo teremos encontrado a fórmula mágica que promova o equilíbrio entre uma boa dose de teoria aplicada. Utilizando o bom senso, por exemplo.

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